A reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em 7 de maio de 2026 não terminou a discussão econômica entre Brasil e Estados Unidos. Ela abriu um canal de negociação que continuou nos meses seguintes e acabou sendo seguido por novas tarifas americanas, contestação brasileira e retomada das conversas em agosto.
A versão original desta matéria foi publicada no próprio dia 7 de maio, quando o principal assunto era o que poderia acontecer depois do encontro. Agora já é possível substituir parte dessa expectativa por uma cronologia documentada do que realmente aconteceu.
Importante: este conteúdo é informativo e apartidário. Ele não recomenda candidato, partido ou posição política e não substitui orientação jurídica, migratória, fiscal ou empresarial.
Resposta rápida: o que a reunião de maio produziu?
Segundo comunicados posteriores do governo brasileiro, o encontro de 7 de maio levou os dois presidentes a determinar a criação de um grupo de trabalho dedicado ao diálogo comercial bilateral.
Esse canal gerou várias reuniões técnicas e de alto nível entre representantes dos dois países ao longo de maio, junho e julho.
Mas o processo não resultou em acordo antes da conclusão de uma investigação americana sob a Section 301. Em julho, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. O Brasil contestou a medida e levou o tema ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
Depois, em agosto, os governos voltaram a conversar e concordaram em manter novas reuniões.
Fontes oficiais principais:
- MDIC — reunião com o USTR e histórico das rodadas após 7 de maio
- USTR — determinação da investigação Section 301 sobre o Brasil
- USTR — ação final e tarifa de 25% anunciada em 15 de julho
- MRE — pedido brasileiro de consultas na OMC
- MDIC/MRE — retomada do diálogo comercial em 31 de agosto
7 de maio: o ponto de partida das negociações
O encontro de maio passou a ser citado pelo governo brasileiro como o momento em que os presidentes decidiram estabelecer um grupo de trabalho para discutir a relação comercial.
Depois disso, representantes do Brasil e dos Estados Unidos mantiveram sucessivas reuniões.
Um comunicado do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços registra encontros de alto nível em 19 e 28 de maio, 13 de junho e 2 de julho, além de reuniões técnicas entre essas datas.
Os assuntos discutidos incluíam temas que também apareciam na investigação comercial americana, como:
- comércio digital e serviços de pagamento;
- tarifas preferenciais;
- combate à corrupção;
- propriedade intelectual;
- acesso ao mercado de etanol;
- desmatamento ilegal.
Fonte: MDIC — reunião Brasil-EUA de julho de 2026.
O que era a investigação Section 301?
A Section 301 do Trade Act de 1974 permite ao governo dos Estados Unidos investigar práticas de outros países que, na avaliação americana, possam prejudicar ou restringir o comércio dos Estados Unidos.
No caso do Brasil, o U.S. Trade Representative, conhecido como USTR, investigou políticas relacionadas a comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, aplicação de regras anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
Em 1º de junho de 2026, o USTR declarou ter concluído que determinadas práticas brasileiras eram, segundo a avaliação do órgão, acionáveis sob a Section 301 e propôs medidas de resposta.
É importante separar fato de posição institucional:
- posição do USTR: determinadas políticas brasileiras prejudicavam ou restringiam o comércio americano;
- posição do governo brasileiro: as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos não correspondiam às práticas brasileiras e não justificavam as sobretaxas.
Este artigo não decide qual interpretação é correta; registra as posições oficiais e o que cada governo fez depois.
Fontes:
Julho: os Estados Unidos aplicaram tarifa adicional de 25%
Em 15 de julho de 2026, o USTR anunciou a ação final da investigação e uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.
Segundo o USTR, a decisão veio após a investigação e as rodadas de negociação realizadas com o governo brasileiro.
A medida entrou em vigor em julho com exceções para determinados produtos e categorias.
O Ministério do Desenvolvimento brasileiro estimou que, somadas as novas medidas tarifárias americanas de julho, 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos ficariam alcançadas pelas sobretaxas específicas analisadas pelo governo brasileiro, enquanto 52,7% permaneceriam fora dessas tarifas adicionais setoriais ou específicas contra o Brasil.
Esses percentuais são estimativas apresentadas pelo governo brasileiro, com base no comércio bilateral de 2024.
Fontes:
- USTR — ação final da Section 301 sobre o Brasil
- MDIC — alcance das medidas tarifárias sobre exportações brasileiras
O Brasil aceitou a decisão americana?
Não.
O governo brasileiro contestou oficialmente as medidas e afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos não eram compatíveis com sua avaliação das práticas brasileiras.
Em 27 de julho de 2026, o Brasil apresentou pedido de consultas aos Estados Unidos dentro do sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O pedido brasileiro questionou duas medidas tarifárias americanas adotadas sob a Section 301.
Solicitar consultas na OMC não significa que uma decisão final já tenha sido tomada contra qualquer dos países. Trata-se de uma etapa formal dentro do mecanismo de solução de controvérsias.
Fonte: Ministério das Relações Exteriores — pedido de consultas aos Estados Unidos na OMC.
As negociações acabaram depois das tarifas?
Não.
Em 21 de agosto, depois de uma conversa entre Lula e Trump, o MDIC informou ter recebido contato do representante comercial americano, Jamieson Greer, para retomar as negociações.
Em 31 de agosto, os ministros brasileiros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa se reuniram virtualmente com Greer.
Segundo nota conjunta do MRE e do MDIC, os lados concordaram em realizar novas reuniões técnicas e voltar a se encontrar em nível ministerial para revisar o andamento das tratativas.
Isso significa que, até a atualização deste artigo, a disputa comercial não estava encerrada e os dois governos continuavam mantendo um canal de negociação.
Fontes:
O que mudou para brasileiros que vivem nos Estados Unidos?
Para a maior parte dos brasileiros residentes nos EUA, os efeitos diretos dessa disputa aparecem principalmente em áreas ligadas a comércio, empresas, exportação, importação e cadeias de fornecimento.
As fontes oficiais consultadas para esta atualização não registram uma mudança automática em:
- visto americano;
- asilo;
- green card;
- autorização de trabalho;
- naturalização;
- prazo de permanência;
- regras gerais de entrada nos Estados Unidos
como resultado da reunião de 7 de maio ou das negociações comerciais posteriores.
Por isso, é importante não transformar uma notícia sobre relação diplomática ou tarifas em uma suposta mudança migratória sem que exista uma regra oficial publicada.
Para acompanhar imigração especificamente, veja Trump e imigração nos EUA: impacto para brasileiros em 2026.
Quem trabalha com comércio entre Brasil e EUA precisa prestar atenção em quê?
Empresas e profissionais ligados a importação e exportação precisam olhar o produto específico, sua classificação tarifária e as regras aplicáveis.
Uma manchete dizendo “tarifa de 25% sobre o Brasil” não significa que todo produto brasileiro passou a pagar exatamente a mesma tarifa adicional.
Existem:
- produtos abrangidos;
- produtos excepcionados;
- medidas sob bases legais diferentes;
- tarifas que podem se acumular em determinadas situações;
- regras de vigência e trânsito de mercadorias.
Para uma decisão comercial real, é necessário consultar a lista aplicável ao produto e, quando necessário, buscar orientação de profissional de comércio exterior ou tributos aduaneiros.
A reunião de maio foi então irrelevante?
Não é possível reduzir a sequência dos acontecimentos a essa conclusão.
O que os registros oficiais permitem afirmar é que o encontro de maio abriu um canal de negociação e foi seguido por diversas reuniões. Também é fato que as diferenças entre os governos permaneceram e que os Estados Unidos posteriormente adotaram medidas tarifárias contestadas pelo Brasil.
Em outras palavras, o encontro iniciou uma etapa de diálogo, mas não eliminou o conflito comercial.
Como acompanhar o tema sem cair em torcida política
Relações entre governos envolvem interesses econômicos, diplomáticos e jurídicos que não podem ser resumidos apenas a declarações de autoridades.
Para acompanhar o tema de forma objetiva, procure três tipos de documento:
- medida oficial americana, como comunicados do USTR e avisos publicados no Federal Register;
- resposta oficial brasileira, como notas do MRE, MDIC e atos publicados no Diário Oficial;
- resultado concreto, como alteração de tarifa, acordo assinado, consulta na OMC ou nova rodada de negociação.
Isso ajuda a separar discurso político de uma mudança que realmente produz efeito jurídico ou econômico.
Conclusão
A reunião Lula-Trump de 7 de maio de 2026 abriu um canal de negociação comercial entre Brasil e Estados Unidos, mas não resolveu as divergências existentes.
Nos meses seguintes, houve várias reuniões bilaterais, uma determinação do USTR sob a Section 301, a aplicação de tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, contestação do governo brasileiro na OMC e retomada das negociações em agosto.
Para brasileiros nos Estados Unidos, a principal conclusão prática é não confundir essa disputa comercial com mudança automática nas regras de imigração. São temas diferentes e devem ser acompanhados por fontes oficiais específicas.
Fontes consultadas
- USTR — Section 301 Determination on Brazil, 1º de junho de 2026
- USTR — Section 301 Action on Brazil, 15 de julho de 2026
- MDIC — reunião Brasil-EUA e cronologia das negociações
- MDIC — alcance das medidas tarifárias americanas
- MRE — pedido de consultas aos Estados Unidos na OMC
- MDIC/MRE — retomada do diálogo comercial em 31 de agosto de 2026
Atualizado em 17 de setembro de 2026.